IMAGEM ILUSTRATIVA
O sucesso de uma política de turismo não é medido pela quilometragem que os gestores e líderes percorrem, mas pelas transformações que eles efetivamente executam “dentro de casa”…
*Voltencir Fleck
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Parece ter-se tornado um hábito comum — e, consequentemente, um descompasso — na gestão pública e nas entidades e associações empresariais e turísticas: comitivas inteiras viajam para participar de grandes feiras, congressos e fóruns de turismo.
É preciso destacar que esses eventos são sérios, legítimos e oferecem grandes oportunidades de aprendizado e conexões.
O erro crônico não está na participação, mas sim no que acontece depois dela: na maioria das vezes, falta o real comprometimento para entender profundamente e aplicar esse conhecimento nas cidades de origem.
Nas redes sociais, o roteiro é previsível.
Fotos sorridentes em painéis coloridos, apertos de mão com autoridades e legendas repletas de jargões como “buscando inovação” e “promovendo nosso potencial”.
À primeira vista, o cidadão desatento pode até pensar que o turismo local está prestes a decolar.
Mas a realidade que se impõe após o desembarque é, quase sempre, uma incômoda ressaca de inércia.
O que se observa na prática — salvo raríssimas e louváveis exceções de municípios que realmente aplicam o que absorvem — é a institucionalização do turismo do “faz de conta”.
Participar de eventos distantes virou uma cortina de fumaça para simular um compromisso com o setor que simplesmente não se materializa no território.
Gasta-se tempo e recursos com passagens, diárias e inscrições, mas o retorno sobre esse investimento é nulo.
A viagem termina na esteira de bagagens.
Ao retornarem, o valioso networking feito nas feiras — que deveria virar parcerias estratégicas, captação de investimentos ou atração de operadoras — perde-se na inércia de gabinetes e lideranças que falham no dever básico de estruturar e executar.
Diante disso, a dúvida que surge em muitos momentos é: a missão é desenvolvida para entender e aplicar conhecimentos na cidade de origem ou a finalidade é simplesmente fazer turismo?
Essa provocação não é exclusividade dos governos.
O problema se estende também a várias entidades e associações empresariais e turísticas que adotam discursos inflamados sobre a busca por novas propostas e novas lideranças para a região, mas que, na prática, esbarram na falta de atitude ou na pura falta de capacidade técnica para tirar os projetos do papel.
O resultado é um ciclo vicioso de reuniões improdutivas e propostas que nunca ganham vida.
Ao longo de mais de 30 anos comunicando sobre o turismo, vivi uma cena emblemática em um desses tantos eventos: ao buscar uma entrevista com um secretário municipal, fui surpreendido por um desabafo de bastidor.
Ele me disse: “Por favor, não me entreviste, eu não entendo nada de turismo. Minha função real aqui é apenas promover a tabela dos jogos municipais, porque a secretaria acumula a pasta do Esporte“.
Infelizmente, essa é a dura realidade na maioria das nossas cidades.
Em que pese o turismo não ter sido pauta na maioria das propostas e debates políticos recentemente, é importante destacar que o desenvolvimento econômico de um município — e, por que não dizer, de uma região — passa pelo setor, se este for bem estruturado.
A verdade é que o turismo não é para amadores.
Essa engrenagem e estagnação generalizada só mudam quando se aplica o básico: o tripé fundamental composto por planejamento, atitude e comunicação profissional.
Sem planejamento, qualquer ideia trazida de um grande centro vira utopia.
Não adianta se encantar com um modelo de turismo sustentável de ponta se o município sequer possui uma sinalização turística básica, um inventário atualizado ou saneamento que garanta a preservação dos atrativos locais.
O planejamento é o dever de casa que transforma a inspiração da viagem em viabilidade prática e estruturada.
Falta também atitude.
O relacionamento construído em um congresso só gera frutos se houver uma postura proativa e corajosa para liderar.
É preciso ter atitude para fortalecer e ouvir o Conselho Municipal de Turismo (Comtur), integrar de verdade os empresários locais, qualificar o comércio e treinar a comunidade para a cultura da hospitalidade.
Sem a atitude de romper com o comodismo, as viagens tornam-se apenas turismo corporativo para os envolvidos.
Por fim, peca-se na comunicação profissional.
Muitos sabem “comunicar” a própria vaidade nas redes sociais durante o evento, mas são incapazes de estruturar uma comunicação mercadológica profissional para vender o destino ao mercado nacional.
Além disso, falham de forma lamentável na comunicação interna: não compartilham o aprendizado com quem ficou e não dialogam com a comunidade para gerar orgulho e, por consequência, o sentimento de pertencimento.
Viajar para aprender, trocar experiências e buscar referências é legítimo e necessário.
O conhecimento oxigena as ideias.
No entanto, o sucesso de uma política de turismo não é medido pela quilometragem que os gestores e líderes percorrem, mas pelas transformações que eles efetivamente executam dentro de casa.
Enquanto as postagens de “faz de conta” forem mais importantes do que a dura rotina de planejar, agir e comunicar no próprio território, continuaremos assistindo a viagens caras que alimentam egos e discursos vazios, mas deixam os nossos destinos exatamente no mesmo lugar: na estaca zero.
Se as situações descritas neste texto não condizem com a realidade do seu município, parabéns pelo trabalho que vem sendo realizado.
No entanto, caso você identifique semelhanças com o cenário local, encerro este artigo reforçando que estas linhas são apenas reflexões destinadas ao debate estruturado.
Opiniões divergentes e contrapartidas técnicas construtivas são sempre bem-vindas para o amadurecimento do setor.
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VOLTENCIR FLECK | Radialista e Jornalista
Editor dos Portais: www.peloscaminhosdoriogrande.com.br
e www.cidadedegramadoonline.com.br
E-mail: fleck.peloscaminhosdoriogrande.com.br
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